segunda-feira, 26 de maio de 2008

      TABACARIA

    Não sou nada.
    Nunca serei nada.
    Não posso querer ser nada.
    À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.

    Janelas do meu quarto,
    Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
    (E se soubessem quem é, o que saberiam?),
    Dais para o mistério de uma rua cruzada constantemente por gente,
    Para uma rua inacessível a todos os pensamentos,
    Real, impossivelmente real, certa, desconhecidamente certa,
    Com o mistério das coisas por baixo das pedras e dos seres,
    Com a morte a por umidade nas paredes e cabelos brancos nos homens,
    Com o Destino a conduzir a carroça de tudo pela estrada de nada.

    Estou hoje vencido, como se soubesse a verdade.
    Estou hoje lúcido, como se estivesse para morrer,
    E não tivesse mais irmandade com as coisas
    Senão uma despedida, tornando-se esta casa e este lado da rua
    A fileira de carruagens de um comboio, e uma partida apitada
    De dentro da minha cabeça,
    E uma sacudidela dos meus nervos e um ranger de ossos na ida.

    Estou hoje perplexo, como quem pensou e achou e esqueceu.
    Estou hoje dividido entre a lealdade que devo
    À Tabacaria do outro lado da rua, como coisa real por fora,
    E à sensação de que tudo é sonho, como coisa real por dentro.

    Falhei em tudo.
    Como não fiz propósito nenhum, talvez tudo fosse nada.
    A aprendizagem que me deram,
    Desci dela pela janela das traseiras da casa.
    Fui até ao campo com grandes propósitos.
    Mas lá encontrei só ervas e árvores,
    E quando havia gente era igual à outra.
    Saio da janela, sento-me numa cadeira. Em que hei de pensar?

    Que sei eu do que serei, eu que não sei o que sou?
    Ser o que penso? Mas penso tanta coisa!
    E há tantos que pensam ser a mesma coisa que não pode haver tantos!
    Gênio? Neste momento
    Cem mil cérebros se concebem em sonho gênios como eu,
    E a história não marcará, quem sabe?, nem um,
    Nem haverá senão estrume de tantas conquistas futuras.
    Não, não creio em mim.
    Em todos os manicômios há doidos malucos com tantas certezas!
    Eu, que não tenho nenhuma certeza, sou mais certo ou menos certo?
    Não, nem em mim...
    Em quantas mansardas e não-mansardas do mundo
    Não estão nesta hora gênios-para-si-mesmos sonhando?
    Quantas aspirações altas e nobres e lúcidas -
    Sim, verdadeiramente altas e nobres e lúcidas -,
    E quem sabe se realizáveis,
    Nunca verão a luz do sol real nem acharão ouvidos de gente?
    O mundo é para quem nasce para o conquistar
    E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.
    Tenho sonhado mais que o que Napoleão fez.
    Tenho apertado ao peito hipotético mais humanidades do que Cristo,
    Tenho feito filosofias em segredo que nenhum Kant escreveu.
    Mas sou, e talvez serei sempre, o da mansarda,
    Ainda que não more nela;
    Serei sempre o que não nasceu para isso;
    Serei sempre só o que tinha qualidades;
    Serei sempre o que esperou que lhe abrissem a porta ao pé de uma parede sem porta,
    E cantou a cantiga do Infinito numa capoeira,
    E ouviu a voz de Deus num poço tapado.
    Crer em mim? Não, nem em nada.
    Derrame-me a Natureza sobre a cabeça ardente
    O seu sol, a sua chava, o vento que me acha o cabelo,
    E o resto que venha se vier, ou tiver que vir, ou não venha.
    Escravos cardíacos das estrelas,
    Conquistamos todo o mundo antes de nos levantar da cama;
    Mas acordamos e ele é opaco,
    Levantamo-nos e ele é alheio,
    Saímos de casa e ele é a terra inteira,
    Mais o sistema solar e a Via Láctea e o Indefinido.

    (Come chocolates, pequena;
    Come chocolates!
    Olha que não há mais metafísica no mundo senão chocolates.
    Olha que as religiões todas não ensinam mais que a confeitaria.
    Come, pequena suja, come!
    Pudesse eu comer chocolates com a mesma verdade com que comes!
    Mas eu penso e, ao tirar o papel de prata, que é de folha de estanho,
    Deito tudo para o chão, como tenho deitado a vida.)

    Mas ao menos fica da amargura do que nunca serei
    A caligrafia rápida destes versos,
    Pórtico partido para o Impossível.
    Mas ao menos consagro a mim mesmo um desprezo sem lágrimas,
    Nobre ao menos no gesto largo com que atiro
    A roupa suja que sou, em rol, pra o decurso das coisas,
    E fico em casa sem camisa.

    (Tu que consolas, que não existes e por isso consolas,
    Ou deusa grega, concebida como estátua que fosse viva,
    Ou patrícia romana, impossivelmente nobre e nefasta,
    Ou princesa de trovadores, gentilíssima e colorida,
    Ou marquesa do século dezoito, decotada e longínqua,
    Ou cocote célebre do tempo dos nossos pais,
    Ou não sei quê moderno - não concebo bem o quê -
    Tudo isso, seja o que for, que sejas, se pode inspirar que inspire!
    Meu coração é um balde despejado.
    Como os que invocam espíritos invocam espíritos invoco
    A mim mesmo e não encontro nada.
    Chego à janela e vejo a rua com uma nitidez absoluta.
    Vejo as lojas, vejo os passeios, vejo os carros que passam,
    Vejo os entes vivos vestidos que se cruzam,
    Vejo os cães que também existem,
    E tudo isto me pesa como uma condenação ao degredo,
    E tudo isto é estrangeiro, como tudo.)

    Vivi, estudei, amei e até cri,
    E hoje não há mendigo que eu não inveje só por não ser eu.
    Olho a cada um os andrajos e as chagas e a mentira,
    E penso: talvez nunca vivesses nem estudasses nem amasses nem cresses
    (Porque é possível fazer a realidade de tudo isso sem fazer nada disso);
    Talvez tenhas existido apenas, como um lagarto a quem cortam o rabo
    E que é rabo para aquém do lagarto remexidamente

    Fiz de mim o que não soube
    E o que podia fazer de mim não o fiz.
    O dominó que vesti era errado.
    Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
    Quando quis tirar a máscara,
    Estava pegada à cara.
    Quando a tirei e me vi ao espelho,
    Já tinha envelhecido.
    Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
    Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
    Como um cão tolerado pela gerência
    Por ser inofensivo
    E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

    Essência musical dos meus versos inúteis,
    Quem me dera encontrar-me como coisa que eu fizesse,
    E não ficasse sempre defronte da Tabacaria de defronte,
    Calcando aos pés a consciência de estar existindo,
    Como um tapete em que um bêbado tropeça
    Ou um capacho que os ciganos roubaram e não valia nada.

    Mas o Dono da Tabacaria chegou à porta e ficou à porta.
    Olho-o com o deconforto da cabeça mal voltada
    E com o desconforto da alma mal-entendendo.
    Ele morrerá e eu morrerei.
    Ele deixará a tabuleta, eu deixarei os versos.
    A certa altura morrerá a tabuleta também, os versos também.
    Depois de certa altura morrerá a rua onde esteve a tabuleta,
    E a língua em que foram escritos os versos.
    Morrerá depois o planeta girante em que tudo isto se deu.
    Em outros satélites de outros sistemas qualquer coisa como gente
    Continuará fazendo coisas como versos e vivendo por baixo de coisas como tabuletas,

    Sempre uma coisa defronte da outra,
    Sempre uma coisa tão inútil como a outra,
    Sempre o impossível tão estúpido como o real,
    Sempre o mistério do fundo tão certo como o sono de mistério da superfície,
    Sempre isto ou sempre outra coisa ou nem uma coisa nem outra.

    Mas um homem entrou na Tabacaria (para comprar tabaco?)
    E a realidade plausível cai de repente em cima de mim.
    Semiergo-me enérgico, convencido, humano,
    E vou tencionar escrever estes versos em que digo o contrário.

    Acendo um cigarro ao pensar em escrevê-los
    E saboreio no cigarro a libertação de todos os pensamentos.
    Sigo o fumo como uma rota própria,
    E gozo, num momento sensitivo e competente,
    A libertação de todas as especulações
    E a consciência de que a metafísica é uma consequência de estar mal disposto.

    Depois deito-me para trás na cadeira
    E continuo fumando.
    Enquanto o Destino mo conceder, continuarei fumando.

    (Se eu casasse com a filha da minha lavadeira
    Talvez fosse feliz.)
    Visto isto, levanto-me da cadeira. Vou à janela.
    O homem saiu da Tabacaria (metendo troco na algibeira das calças?).
    Ah, conheço-o; é o Esteves sem metafísica.
    (O Dono da Tabacaria chegou à porta.)
    Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
    Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
    Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.

    Álvaro de Campos, 15-1-1928
PS- por amor á metafísica.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

FELIZES 35

Hoje saltei à corda durante 5 minutos sem parar!!! isto com o tempo vai, hien! Já la vão uns bons 3 meses, desde que comecei a minha guerra com a celulite. Não prometo ganhar, mas prometo não lhe dar sossego!!!
depois de um intenso treino de thai fitness (um simpático variante do Muhai Thai), de um belo duche e um longo gole de água, nada me teria feito melhor do que uma massagem (a 2 mãos seria ainda melhor), intensa e aromática.... fiquei-me pela clara imaginação! nem massagem nem mãos...
fica-me a segurança deste meu corpo abusado pelos meus dois filhos que insiste em manter o mesmo peso, desde que dei inicio á guerra contra a celulite.
tenho 35 anos, e celulite!!!!! :( mas também tenho mais do que isto...

ter 35 anos é sentir alguma segurança, ter algum medo de prosseguir com o tempo sem o poder controlar, é saber escolher com mais determinação, é ter capacidade de amar muito mais amplamente, é perdoar mais, é sorrir mais ainda e é sobretudo apreciar mais tudo o que se sente.
ter 35 anos é conseguir dizer com mais clareza o que se sente, sem enganos , sem obrigações morais, é dizer não, quando é preciso, sem medo e sem stress...
ter 35 anos é poder dizer sim quando realmente se quer, é saber como dizer, e a quem...
ter 35 anos é começar a ter capacidade para aceitar o que não podemos mudar e ganhar coragem para fazer alguma coisa com o que realmente podemos mudar.
ter 35 anos e filhos, é sentir amor.... é querer abraçar eternamente a pele e o cheiro dos nossos meninos... é chorar de amor ao vê-los dormir... é não parar de olhar quando se quer!! é dormir sempre com eles.
gosto dos meus 35.... pena que não sejam eternos... como os diamantes!

quinta-feira, 1 de maio de 2008

Meus ricos comprimidos…

Deviam ser umas 14h00 mais ou menos. Tinha chegado de Pombal, terra de minha falecida avó, onde a minha família guarda ainda alguns pertences patrimoniais, que temporariamente visitamos (á excepção da casa onde vive actualmente uma prima).
Estava brutalmente cansada... o corpo só conseguia reagir a um cansaço interior que teimava em saltar para fora, mas a minha mente não deixava!
Por cada quilometro percorrido o medo apoderava-se de mim... ia-me subindo pelas pernas como um queimado que lentamente chegava ao cume. Sentia-se vitorioso e eu não conseguia combater aquele calor antecipado.
Tenho a vida do avesso...
Os meus alicerces, a minha estrutura, os ferros que me seguram por dentro como a um prédio em construção parecem falhar-me. Falo de meus queridos e amados pais! Cansados e com muita vontade de serem poupados a preocupações familiares... Para eles, agora, apenas as dificuldades alheias que não os tocam na pele, é que são dignas de serem comentadas á mesa do jantar. Tudo o resto não deveria fazer parte das suas vidas. Já lá vai o tempo em que minha mãe corria desalmadamente atrás de mim com um chinelo na mão para me «acalmar os nervos»... hoje deveriam ambos, estar calmos e tranquilos, pela vida agitada que tiveram com seus filhos, onde me incluo em maior dimensão que minha mana.
É este o medo que se apoderava de mim... saber que trazia para a minha realidade diária uma mãe que quer descansar e não consegue, uma filha parvamente adolescente que devia ser isso mesmo, filha de mim, mas que prefere ser filha de todos e desvairar-se para todos os lados... (odeio adolescentes...!), e quando parei e me sentei, uma enorme vontade de envolver-me em comprimidos e braços percorreu o meu corpo.
A esta vontade de comprimidos e braços que quase me afogava, como uma dependencia de que eu sentisse falta, estava constantemente a piscar no meu cérebro. Para todos os lados que olhava via umas letras em néon fluorescente com um brilho sedutor que me diziam «abraça-me...».
Restou-me pegar em minha mana, em minha mãe, e conduzir até casa onde meu pai nos esperava alegremente para o preparo de mais um repasto á moda de minha mãe... a filha, a adolescente continuou a ser isso mesmo, e pediu-me para dormir em casa de uma amiga, outra adolescente... daquelas que eu odeio...
Jantei, abracei-me a um tranquilizante e deleitei-me em minha cama.... até de manhã!
Benditos sejam aqueles que nos fazem esquecer a nossa pele o cansaço do amor....